Aquecimento global
Aquecimento global: o fim do conforto garantido
De todas as mudanças que a espécie humana realizou na Terra, talvez a climática seja a mais marcante, e também a mais negada de todos os tempos. No texto escrito em 2001 por George Marshall chamado ‘A psicologia da negação’, na revista The Ecologist sobre mudanças climáticas, o autor mostra o quanto a humanidade nega e disfarça o envolvimento com as mudanças ambientais mais drásticas que estamos acompanhando, como a destruição da camada de ozônio, primeiro estágio para um planeta mais quente.
Entre as diversas formas de contribuição humana para o aquecimento global está uma das indústrias mais rentáveis do mundo: a pecuária. Em relatórios da ONU e em pesquisas divulgadas em todo o mundo, podemos saber de algo escondido. A indústria da carne é responsável por significativos índices de desmatamento, para a criação de gado e para a plantação de soja, que é destinada em sua quase total maioria ao gado. Na Costa Rica, na Colômbia, no Brasil, na Malásia, na Tailândia e na Indonésia, as florestas tropicais são destruídas para se conseguir terra para pastagens, explica Peter Singer. Sabe-se que 70% da soja brasileira é destinada apenas a animais, e qualquer estudante de Ecologia é capaz de constatar que a energia vem diretamente dos vegetais e dos organismos fotossintetizantes. Desperdiçar alimentos - solo, água - através do consumo de animais gera uma perda energética bem maior que se os mesmos fossem consumidos por humanos. Entre outros alimentos que são plantados exclusivamente para animais está a aveia, o milho, o linho e o sorgo.
A população de bovinos no Brasil já ultrapassou a humana, com mais de 190 milhões de cabeças de gado; no mundo o número chega a 20 bilhões incluindo as aves. A criação de animais gera a poluição e o uso sistemático de muitos litros de água. A suinocultura, só em Santa Catarina, já rende por dia 37.835.803,2 litros de dejetos. Os ruminantes em geral, no caso, os bovinos, emitem grandes quantidades de gás metano, que é 23 vezes mais poderoso que o CO2 para o efeito estufa. Ruminantes também produzem o óxido nitroso, 296 vezes mais potente que o CO2. A pecuária ainda emite amônia, causadora da chuva ácida.
Sem falar no transporte de animais vivos ou mortos, que gera consumo de combustíveis fósseis, já que em muitos países do primeiro mundo não se trabalha mais com pecuária - preferem deixar esse trabalho dispendioso e anti-ecológico para os países do Terceiro Mundo que não contabilizam gastos ecológicos ao exportar carne. A FAO, órgão da ONU onde se pode obter essas e outras informações, concluiu que a pecuária contribui mais que os automóveis para o aquecimento global. Mas por que estas informações não são populares?
Desde a década de 30 sabe-se por diversas pesquisas que há diversas fontes de aminoácidos e nutrientes diversos em todos os vegetais, e que a carne não é necessária para a alimentação humana. Por que essas informações não são tão divulgadas e os mitos continuam sendo transmitidos como verdade, até por alguns médicos? Hoje existem alimentos saborosos, infinitamente superiores em qualidade nutricional e sabor, e ainda baratos, mas poucos sabem disso.
Além do prejuízo ambiental, há um outro prejuízo que talvez seja irreparável: o ético. Ao consumir-se alimentos de origem animal, não somente o ambiente físico está em risco, mas o sofrimento e exploração de milhões de animais que simplesmente são ignorados pela maioria das pessoas. Alguns procedimentos realizados nos animais de consumo seriam crimes, se fossem realizados em cães e gatos. O fato é que não é crime mutilar um animal vivo, nem privá-lo dos movimentos básicos, não é crime utilizar-se de procedimentos sem anestesia e tudo isso por que esses animais são considerados como ‘coisas’, e não como seres em si mesmos. São destinados ao mercado de consumo e serão mortos de forma cruel, avidamente consumidos por milhões de pessoas em todo o mundo, as mesmas pessoas que dizem preocupar-se ‘com os animais e com o aquecimento global’.
As pessoas estão preocupadas com o aquecimento global, mas não querem mudar seus hábitos nem mesmo questionar a vida massificada em que estão imersas, sem perceber.
Um olhar mais atento, uma conversa mais aprofundada, revela as defesas e justificativas sempre infundadas de quem se diz interessado pelas questões do mundo, mas não muda nada em seu próprio mundo e, ao contrário, viabiliza a forma de manter tudo como está. Basicamente é possível fazer algo, como apagar as luzes da casa, fechar a torneira enquanto se escova os dentes, reciclar o papel e o óleo de cozinha. Todos esses procedimentos são essenciais até mesmo para nossa economia pessoal, mas o que é isto em larga escala, se em outras questões estamos pagando, e bem caro, para que a poluição continue?
Deveríamos pensar em outros hábitos menos questionados, onde estão a maior parte do mal que causamos ao ambiente, e não queremos admitir sob pena de ter que mudar as coisas. Todos se interessam pelos animais, dizem aos quatro ventos que amam os animais, mas não vemos os números da exploração animal diminuir. Ao contrário, da mesma forma que ocorre com as crianças, seres indefesos, os animais vêm sofrendo as mais terríveis formas de traição e escravidão. Embora estejamos em um século de tecnologia avançada, ainda estamos no tempo das cavernas no que se refere ao respeito pelos semelhantes e pelas diferenças, especialmente os mais indefesos. Ao mesmo tempo em que se jogam crianças pela janela, da mesma forma animais perecem na escuridão de uma cultura que os ignora. E as elucidações, os congressos, as análises, os livros sobre o assunto não páram de crescer, embora pareçam não contribuir em nada para mudar as coisas - isto porque a mudança é algo mais profundo que uma simples leitura da realidade, sem ações efetivas.
Os animais são ainda a última instância, em se tratando de ética e respeito aos seres vivos. Agora que já não é mais aceitável escravizar índios, negros, pobres ou oprimir - pelo menos abertamente - as mulheres, ainda é possível que o mesmo seja feito aos animais. Ainda é aceitável que tudo em nossa cultura, especialmente a linguagem e a alimentação, sejam de modo a inferiorizar os animais. Com esse ato, a espécie humana torna-se lamentavelmente inimiga de si mesma, seja por acabar com a própria casa onde habita, seja por inferiorizar outros seres, esquecendo-se de que também é um animal, e como todos os outros, depende de uma cadeia ecológica baseada principalmente na cooperação.
* Ellen Augusta Valer de Freitas, bióloga e professora de educação de jovens e adultos
Partilha da conta ambiental (2005)
Um dos temas mais desafiadores da questão ambiental é o das mudanças climáticas. Um conjunto de circunstâncias, em grande medida associadas às atividades produtivas - agropecuárias, industriais, energéticas - vem provocando efeitos que levantam graves alertas. O debate científico ainda não está concluído, mas é certo que há forte correlação entre o aumento das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera e as mudanças climáticas.
O efeito estufa é uma propriedade natural do planeta, fundamental para a manutenção do clima global e da vida. Sem ele, a temperatura da Terra seria cerca de 33ºC mais baixa e a vida não existiria tal como conhecemos. Entretanto, as emissões de gases pelo homem estão aumentando o potencial de estufa da atmosfera terrestre. Os principais gases de efeito estufa são o vapor d´água, o gás carbônico, o metano, os clorofluorcarbonos, o ozônio e o óxido nitroso.
De um modo geral, as negociações internacionais envolvendo mudanças climáticas são complexas, devido a incertezas científicas, tais como: impactos reais, custos das ações de mitigação, efeitos de longo prazo, lapso de tempo entre emissão e impacto, irreversibilidade dos efeitos.
A solidariedade em escala internacional está no centro da questão. Ela se manifestou explicitamente durante a Conferência do Rio (Eco-92), com a Convenção de Mudanças Climáticas, que estabelece como objetivo: a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera em um nível que impeça toda perturbação antrópica do sistema climático.
O protocolo assinado em Kyoto, em 1997, representa um primeiro passo concreto em relação a este objetivo. Ficava ali estabelecido que os países industrializados que mais emitem gases de efeito estufa deveriam reduzir suas emissões em 5% até o período 2008-2012, relativamente aos valores de 1990. Em 2003, a União Européia ratificou o protocolo, com mais 47 outros países. Entretanto, o principal protagonista do processo, os EUA, que respondem por 1/3 das emissões de dióxido de carbono na atmosfera, recusou-se a aderir ao compromisso. Segundo o presidente George W. Bush, o custo para seu país seria da ordem de 400 milhões de dólares e 4,9 milhões de desempregados. Tal estimativa não corresponde aos números do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, que prevê um custo nulo das primeiras medidas a serem adotadas.
Um dos principais pontos do Protocolo de Kyoto são os dispositivos de flexibilização geográfica: o mecanismo de ação conjunta, que permitem aos países desenvolvidos realizar projetos de redução de emissões em outros países desenvolvidos, creditando tais reduções em suas contas de emissão; o mecanismo de desenvolvimento limpo ? MDL, que permite aos países desenvolvidos realizar projetos de redução de emissões ou de seqüestro de carbono em países em ou não desenvolvidos, contribuindo para o desenvolvimento sustentável dos mesmos; e o comércio internacional de emissões, que permite a transmissão de parte das permissões autorizadas, de um país a outro, mantendo-se os limites globais constantes.
A adesão dos países europeus não é garantia de sucesso da iniciativa. O Protocolo de Kyoto só entrará em vigor 90 dias após a ratificação por, pelo menos, 55 partes da Convenção, incluindo-se os países desenvolvidos que contabilizaram pelo menos 55% as emissões globais de CO2 em 1990. Esse patamar de limite às emissões assegura que a implementação do Protocolo poderá ter influência efetiva sobre a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Até o presente, com a recusa norte-americana e da Rússia, a iniciativa parecia fadada ao adiamento para um futuro remoto.
O anúncio recente da intenção do presidente Putin em ratificar o Protocolo é um alento, mas há que se considerar que o parlamento russo não parece ter a mesma posição. Portanto, qualquer prognóstico ainda demanda cautela. Em todo caso, com a adesão da Rússia, a presença dos EUA se torna desnecessária à vigência do compromisso. Restaria saber qual será de fato a posição americana diante de tais fatos. As eleições de novembro não acenam com possíveis mudanças: a reeleição de Bush implica continuidade do atual posicionamento; a eventual eleição de Kerry também não garante mudança.
Cabe assinalar que, em termos econômicos, a ratificação do Protocolo de Kyoto abre uma importante janela de oportunidade às vantagens comparativas brasileiras. País detentor de extensas áreas de florestas densas, o Brasil pode vir a desfrutar de posição ímpar no cenário mundial como provedor de uma nova commodity: a captura de carbono. Até aqui, entretanto, as florestas nativas não entram na conta das negociações internacionais; só as áreas de reflorestamento.
* Maria Augusta Bursztyn, professora do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, com doutorado em Ciências da Água pela Université de Paris VI e pós-doutorado em Avaliação Ambiental pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris
Aquecimento global: sim, estamos em perigo
Este artigo é uma contribuição para ajudar a esclarecer as dúvidas sobre este tema tão relevante para a humanidade neste momento, que talvez seja o prazo final para decidirmos nosso destino, entre o colapso e a prosperidade.
O fato é que não deveria haver dúvida alguma de que o homem arruinou o planeta e que é o único responsável pelo aquecimento global, pois há consenso sobre isso entre todos os cientistas mais notáveis do planeta, um fato raro na história da ciência. Esta unanimidade vem da análise de dados científicos bem consistentes, que foram medidos e coletados meticulosamente, usando equipamentos da mais avançada tecnologia. A conclusão é incontestável: o homem colocou a vida no planeta em grave perigo.
Alguns órgãos de imprensa têm sido os principais culpados por causar esta dúvida nas pessoas. Lamentavelmente, cometem um equívoco ao dar crédito a opiniões de pessoas sem respaldo na comunidade científica, que dão apenas palpites, sem comprovação científica alguma de seus argumentos, provocando a falsa impressão de que a comunidade científica está dividida e num acirrado debate se o homem é ou não responsável pelo aquecimento global.
A situação é mais ou menos a seguinte: para cada 100 cientistas sérios alertando que o homem está causando o aquecimento global, com argumentos científicos bem fundamentados, existe um indivíduo, sem prova científica alguma, dando nada mais do que um palpite negando o fato. Então, alguns jornais passaram a dividir democraticamente o espaço, dando a mesma importância para a conclusão deste grupo de 100 cientistas sérios e para o palpite deste indivíduo, que sem base científica afirma que as causas do aquecimento devem-se a ciclos naturais do clima na Terra.
A respeito das conseqüências devastadoras do aquecimento global sobre a vida na Terra, que obviamente também atingirá a nossa vida, só nos resta saber quando vão ocorrer. E neste ponto os cientistas têm errado nas previsões: estão acontecendo bem antes do esperado e com intensidade maior do que o previsto em simulações por computador. Um exemplo foi o que ocorreu na Antártica com a plataforma de gelo Larsen-B, que tinha 240 km de comprimento e 50 km de largura, prevista para derreter em 100 anos. Ela se desprendeu e derreteu em apenas 35 dias, no início de 2002. Isso comprova que os efeitos podem não ser graduais como a nossa geração gostaria (para deixar a conta para a próxima geração, quando não estivéssemos mais por aqui). A conta a ser paga pode surgir subitamente e nos surpreender.
Sempre me interessei pela preservação da natureza e desde a época de estudante de física, há 28 anos, tenho acompanhado atentamente este assunto, lendo muitos dos artigos científicos publicados nas mais respeitáveis revistas científicas especializadas e não dava para duvidar da qualidade dos resultados apresentados. Então, associando estes estudos que vinham sendo divulgados, fui ficando cada vez mais angustiado ao perceber que a devastação intensa da Mata Atlântica em Santa Catarina, mais especificamente das Matas de Araucárias no planalto norte, além de ceifar instantaneamente a vida de milhares de bichos que habitavam a área desmatada, estava contribuindo também para aniquilar a nossa própria espécie um pouco mais adiante.
Já que não dispomos de outro planeta para viver e achamos que não é ético negarmos a perpetuação da vida para milhares de organismos, incluindo a nossa própria espécie, minha esposa e eu decidimos criar uma ONG, o Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade ( www.ra-bugio.org.br ), para defender continuidade da vida por aqui. Nossa atuação é através da educação ambiental nas escolas para mostrar para a garotada a importância da preservação das últimas áreas de Mata Atlântica.
A sociedade precisa ser informada para não ser iludida com as propostas mirabolantes e demagógicas, como o plantio de árvores para salvar o planeta diante de um quadro alarmante de desmatamento legal e ilegal, tanto na Mata Atlântica, já quase extinta, como na Floresta Amazônica. Há estudos mostrando que se continuarem a desmatar, a concentração de gás carbônico na atmosfera vai aumentar significativamente a curto prazo, agravando, e muito, o aquecimento global, de modo que por muitas décadas os níveis permanecerão num patamar muito mais elevado do que é hoje – que já é suficiente para nos conduzir ao colapso -, e de nada vai adiantar cobrir o planeta com mudas de árvores, pois levarão muito tempo para crescerem e mesmo após este tempo não conseguirão retirar da atmosfera todo o gás carbônico emitido pela destruição das matas nativas. Lembrando que o desmatamento acaba com a vida dos animais que vivem ali, e o simples plantio de árvores não devolve a biodiversidade de uma floresta.
O que podemos fazer? Se quisermos resolver com seriedade o problema do aquecimento global, e da nossa sustentabilidade neste planeta, todo o esforço da sociedade deve ser empreendido no sentido de parar o desmatamento imediatamente, já! Se obtivermos êxito neste primeiro desafio, aí sim poderemos partir para os próximos: fontes alternativas de energia, projetos de seqüestro do carbono para reduzir os índices aos níveis da era pré-industrial permitindo a regeneração de florestas nativas, plantando árvores etc. Se não conseguirmos vencer nem este primeiro desafio, que não depende de avanços tecnológicos e tampouco gera desenvolvimento – só dependem do simples cumprimento das leis – podemos nos preparar para o pior, que nos espera num futuro bem próximo. Preservar o que resta de nossas florestas é a maneira mais racional e óbvia de prolongar nossa vida na Terra.
* Germano Woehl Jr., doutor em Física e ambientalista, dirigente do Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade
O avanço do aquecimento global
As aterrorizantes passagens dos furacões Rita e Katrina pelo sul dos EUA chamaram a atenção dos pesquisadores para um fenômeno bastante discutido em todo o planeta nas últimas décadas: o crescimento do aquecimento global. Embora ainda não exista relação direta comprovada entre os dois fenômenos, estudos realizados pelo climatologista do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Kerry Emanuel, apontaram que, nos últimos trinta e cinco anos, a duração e a intensidade dos furacões no Oceano Pacífico aumentaram.
O grande destaque na pesquisa, no entanto, foi a constatação de que, neste mesmo período, registrou-se uma forte elevação na temperatura atmosférica e na superfície do oceano. Embora ainda não esteja cientificamente comprovada a relação causa/efeito entre os dois fenômenos, os dados ligaram o alerta vermelho na comunidade científica. Preocupação constante dos ambientalistas, os indícios apontados na pesquisa mostram que o aquecimento global começa a apresentar sua conta agora, e não em médio prazo, como era esperado.
Os furacões, embora tenham provocado estragos irreparáveis, são apenas a ponta de um problema que pode trazer sérios problemas ao futuro da humanidade. Problemas que, cada vez mais, começam a mostrar suas "garras", interferindo no clima, nas plantações, na qualidade do ar. "Hoje, não há dúvidas de que uma mudança climática se iniciou e está se desenvolvendo. Existem vários fatores que já apontam nesse sentido. O planeta está sofrendo um aquecimento que é significativo", afirma o professor do departamento de Geografia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Fernando Livi.
Uma vez constatado o aquecimento global, teve início uma "caça às bruxas". Era preciso encontrar um culpado para as alterações climáticas. Periodicamente, um novo vilão era encontrado: o consumo descontrolado de derivados do petróleo, a poluição industrial, o CFC, o CO2. Olhando para estas questões, não é difícil perceber que o ser humano e seus hábitos estão por trás de todos elas. Desmatando, incendiando e extraindo recursos naturais ao limite, o homem acabou por transformar em tragédia algo que pode ser apenas um dos ciclos do planeta.
"O que realmente existe é um aumento da temperatura global. Agora, a grande questão é se isso é um ciclo natural do planeta ou se está sendo provocado diretamente pela atividade humana", explica o professor do departamento de física da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), Hamilton Pavão. "O que se tem em consenso, é que, mesmo que este seja um ciclo natural, é certo que as atividades humanas estão interferindo e agravando essa situação de aquecimento. Essa é a realidade."
O Brasil e as conseqüências
Com o crescimento da temperatura global nos últimos vinte anos, as conseqüências já vinham se agravando nos últimos tempos. Inversões climáticas e derretimento das calotas polares foram os primeiros sinais de que algo estava errado. Hoje já se sabe, por exemplo, que, além destas conseqüências mais claras, há problemas não tão visíveis. "O aquecimento também muda as taxas de reações químicas dos componentes da atmosfera. Por conta dessas alterações, podemos ter produção de algumas espécies de forma mais rápida do que de outras. Isso pode ser uma conseqüência também", explica Pavão.
Quando estes sinais começaram a afetar a economia de alguns países, no entanto, surgiu uma cobrança mais intensa de políticas que colaborassem na redução dos prejuízos. Assim, criou-se a polêmica em torno da criação de acordos multi-laterais, como o protocolo de Kioto, que comprometessem as nações a combater as causas do aquecimento. No Brasil não é diferente. No caso brasileiro, a grande questão se dá em torno dos problemas criados para a agricultura, elemento cada vez mais importante para a economia local.
Em um país de dimensões continentais, as conseqüências têm se apresentado de maneira distinta. Cada vez mais, regiões que tradicionalmente contavam com razoáveis períodos de chuva, como o sudeste e o sul, passam a conviver com longas estiagens. Ao mesmo tempo, as chuvas, quando chegam, superam completamente as expectativas – e o resultado, em alguns casos, chega a ser trágico, com fortes enchentes. Vale lembrar que, no início de 2004, a região Sul registrou a passagem do furacão Catarina, com ventos que variavam entre 118 km/h a 152 km/h.
Para exemplificar de maneira prática o que ocorre, pode-se tomar como exemplo a estiagem vivida no Rio Grande do Sul nos últimos anos. Sem chuvas, a quantidade de água do solo diminuiu sensivelmente, prejudicando o desenvolvimento da safra. "Tivemos uma estiagem no verão passado que prejudicou muito as plantações de milho e soja. A economia está começando a sofrer violentamente com o empobrecimento do campo e gerando índices de retração industrial e do comércio. O PIB do estado está começando a mostrar os números do que é uma seca prejudicando a produção agrícola", afirma Livi.
Segundo Livi, nos últimos dez anos, de cinco a sete safras foram prejudicadas pela falta de água no solo. O impacto, além de ambiental, também se transforma em um problema social. "O prejuízo por uma perda provocada pela falta de água é muito grande para a sociedade. E é para isso que precisamos nos preparar. Ou com pesquisas que possibilitem ter culturas que nos dêem uma garantia de resistir à estiagem ou medidas como procurar ampliar as áreas de florestas, que mantêm a água no solo por mais tempo", diz.
Soluções
Atualmente, são poucas as perspectivas para a solução do problema. Investir na redução dos chamados gases-estufa pode reduzir os prejuízos, mas não saná-los. Além deles, crescem problemas graves e que também tem interferência nesse contexto, como os desmatamentos, os incêndios, o crescimento da fronteira agrícola. Para o professor Livi, o homem pode acabar sendo surpreendido pela própria natureza, que pode encontrar no crescente aquecimento global a solução para revertê-lo.
"Acredito que talvez sejamos surpreendidos, se o aquecimento global gerar um aumento significativo de nuvens, que geram um alto índice de reflexão da energia solar. Dessa forma, poderíamos ter um efeito de redução do aquecimento provocado por ele mesmo. Não sabemos se vai ocorrer, mas, fisicamente, é possível que ocorra", explica Livi. "Podemos ser agraciados com esses efeitos, que gerariam uma atenuação do aquecimento global. Esses fenômenos naturais têm poder de agir sobre o clima do planeta até em curto prazo."
Ainda assim, eliminada a ação do homem no meio-ambiente, fica a incerteza de saber se estamos passando por um ciclo climático do planeta. Se for esse o caso, dificilmente saberemos. "Se observarmos os períodos da terra, já passamos por uma era glacial e depois veio o degelo. Por essa observação, sabemos que já houve um aquecimento natural da terra, há milhões de anos. Então, como esses ciclos são muito lentos, talvez a gente não viva para saber se vai passar", finaliza Pavão.